quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Antes do dilúvio, 1ª parte

Antes do previsível dilúvio de sondagens a que assistiremos na próxima semana, façamos um ponto da situação. Vou ser relativamente superficial nesta análise e concentrar-me apenas nalguns pontos fundamentais das sondagens conduzidas desde o anúncio de dissolução da Assembleia e convocação de eleições, e principalmente nas dúvidas e perplexidades que elas levantam.

1. A "margem de vitória" do PS. Dê-se por adquirido que o PS vai ser o partido mais votado. Uma derrota do PS seria uma de duas coisas (ou ambas): a maior reviravolta nas intenções de voto alguma vez causada por uma campanha eleitoral na história da democracia portuguesa; ou o maior fracasso das sondagens na história da democracia portuguesa. É certo que, em política ou em sondagens, não há impossíveis. Há apenas probabilidades e improbabilidades. Que o PS acabe por não ser o partido mais votado é uma enorme improbabilidade.

Dito isto, vitória com que margem? Não se sabe. Há duas razões principais para isso. Por um lado, as diferentes "fotografias" das intenções de voto obtidas pelas sondagens realizadas ao longo dos últimos dois meses são discrepantes: a margem de vitória atribuída oscila entre os 8% (Euroteste) e 19% (Aximage, 10 Janeiro). E há possibilidade de algum "voto oculto" no PSD, como já se discutiu. Por outro lado, aquilo que se fotografou foi um alvo em movimento. Falta uma semana e meia, e várias coisas podem ainda mudar. Uma das coisas mais importantes que vai certamente mudar é a forma como aqueles que actualmente dizem tencionar votar num partido acabam por engrossar a abstenção, como sempre acontece. Se o fizessem de forma proporcional às actuais intenções de voto, não faria diferença. Mas pensa-se que existe sempre uma "abstenção diferencial", ou seja, há sempre partidos mais afectados pela abstenção do que outros. E esta abstenção é, sabemos pelo menos isso com alguma certeza, a maior e mais importante fonte de discrepância entre as sondagens e os resultados eleitorais.

Uma maneira de perceber o que poderá suceder é olhar para o passado e ver que partidos são mais "beneficiados" ou "afectados" por esse presumível efeito. O gráfico seguinte mostra os resultados das sondagens realizadas antes do início da campanha eleitoral de 2002. O último ponto na série é formado pelos resultados nas eleições legislativas de 2002.



Mas isto não chega. Este gráfico ilustra vários dos problemas que se enfrentam quando nos pomos a fazer teorias ad hoc acerca daquilo que as sondagens realizadas antes das eleições nos podem dizem sobre os resultados. Notem que, à excepção de duas sondagens, todas as restantes mostram uma vantagem do PSD bem superior àquela que se veio a verificar. Há algumas teorias que justificam este desfecho: a da "abstenção por certeza de vitória", ou seja, a uma maior desmobilização comparativa dos eleitores do partido que se "sabe" ir ganhar; ou a dos efeitos da campanha. Uma e outra seriam, potencialmente, boas notícias para o PSD em 2005.

Mas imaginem que as "boas fotografias" da intenção de voto no gráfico anterior foram precisamente as duas sondagens que, uma em Janeiro e outra em Fevereiro de 2002, já davam resultados muito próximos daqueles que se vieram a verificar no dia 17 de Março? Há uma outra teoria para isto: a de que no fundamental, as intenções de voto estão decididas bem antes da campanha, na base de factores de longo (ideologia; identificação partidária) e médio-prazos (avaliação do governo). Qual a teoria verdadeira? Exclusivamente na base destes dados, não é possível saber.

Deixem-me pegar no mesmo assunto, mas agora do avesso. Quando olhamos para as últimas eleições europeias de 2004, por exemplo, verificamos que, ao contrário do que sucedeu em 2002, quase todas as sondagens subestimaram (em vez de sobreestimarem) o vencedor. Mas quererá isso dizer que a teoria da "abstenção por certeza de vitória" não faz sentido? E se essa "anomalia" se deveu antes ao factor "Sousa Franco"? Ou será que o uso (comum e habitual) das eleições europeias como forma de punir o governo torna impossível a comparação com as legislativas? À partida, é impossível saber.

E mesmo o caso do CDS-PP é opaco: o facto de todas as sondagens realizadas antes da (e, já agora, durante a) campanha de 2002 subestimarem o CDS-PP ter-se-á devido a um late surge do partido nos últimos dias ou a um enviesamento geral partilhado por todas as sondagens? Na base de dados deste género, não é possível saber.


2. O CDS-PP. A propósito do CDS-PP, há outra fonte de perplexidade nestas sondagens. Há dias, avancei aqui uma hipótese explicativa para a subestimação do CDS nas sondagens, pelo menos de 1999: o voto no CDS como "voto oculto". Na altura, avisei que se tratava apenas de um palpite...

E ainda bem que avisei. Porque agora estou a ficar baralhado. Se o voto no CDS é "oculto" (ou pelo menos "mais oculto que os outros"), por que razão será a única sondagem conduzida até agora através de simulação de voto em urna (Intercampus, publicada a 3 de Janeiro) aquela que, entre as mais recentes, tem intenções de voto mais baixas no CDS? E porque estão todas as sondagens telefónicas (à excepção da Marktest) a dar intenções de voto mais altas ao CDS do que as sondagens presenciais, quando no passado tendia a acontecer precisamente o oposto? Será que alguns institutos andam a introduzir "factores de correcção" para compensar aquela que tem sido a subestimação do CDS-PP no passado? Será isto um efeito da utilização de resultados eleitorais anteriores para ponderar a amostra? E se as respostas às questões anteriores forem afirmativas, será que quem está a fazer uma ou outra coisas está a fazer bem ou mal?


3. O Bloco. Depois de um ponto alto no final de Janeiro com três ou quatro sondagens consecutivas, o Bloco começa a encostar, nas sondagens que se seguiram, a valores menos surpreendentes. Mudança real ou fotografias desfocadas? Uma vez mais, não se sabe. Mas aqui talvez valha a pena confrontar a frieza dos números com a apreciação mais qualitativa da campanha. Não sei se terão reparado, mas o fim da pré-campanha e o início oficial da campanha trouxe uma transição, quase perfeitamente orquestrada, da conflito governo/oposição para lutas separadas no interior de cada um dos blocos ideológicos. Assim, temos:

- À direita: o PSD a dar tudo por tudo a ver se não perde muito do seu eleitorado para a abstenção e consegue um resultado "honroso"; um PP "moderado" a ver se sobra qualquer coisa da previsível desmobilização do PSD. O resultado são pequenas escaramuças entre Portas e Santana, que tenderão inevitavelmente a aumentar.

- À esquerda: apesar do que se disse no início, temos agora o PS a ver se vai buscar votos ao Bloco; o Bloco a ver se os preserva e ao mesmo tempo, entra pelo quintal do PCP (desemprego, desemprego, e mais desemprego); e o PCP a ver se se aguenta no meio de tudo isto.

Sobre a luta à direita, pelo que se disse anteriormente, tudo inconclusivo. Sobre a luta à esquerda, as sondagens sugerem - sugerem, repito - que a corda está a começar a partir para o lado do Bloco, pelo menos em comparação com os resultados elevados de finais de Janeiro.
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