quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Antes do dilúvio, 2ª parte

Num post anterior, e por referência ao caso de 2002, sugeri que é muito difícil, na base de dados agregados, determinar se as evoluções verificadas ao longo do tempo nas diferentes sondagens se devem a reais mudanças nas intenções de voto dos portugueses ou a variações ditadas, pura e simplemente, pela diferente capacidade de diferentes sondagens em obter boas medições dessas intenções, seja devido a erros amostrais ou a erros de outra natureza.

Mas para terminar este "ponto de situação" antes do dilúvio da próxima semana, há algo que se pode fazer para mitigar o problema. Independentemente do que se possa achar da qualidade do trabalho que fazem - e eu já disse que acho que, de há uns anos para cá, a qualidade geral é boa - um dos bons serviços que a Aximage e a Eurosondagem (e aqueles que lhes pagam os trabalhos, o Correio da Manhã, o Expresso e a Rádio Renascença) têm prestado nesta campanha é a realização de várias sondagens a intervalos regulares. Façamos então o seguinte exercício:

1. Se temos dúvidas acerca da possibilidade de comprar diferentes sondagens feitas pelos diferentes institutos/empresas, esqueçamos o assunto e não as comparemos.

2. Comparem-se apenas sondagens feitas pelos mesmos institutos/empresas ao longo do tempo. Como utilizam metodologias mais ou menos constantes, quaisquer enviesamentos que essas metodologias introduzam nos resultados serão, em princípio estáveis.

3. Assim, quaisquer variações que encontremos entre sondagens feitas por um mesmo instituto/empresa em diferentes momentos no tempo deverá dever-se a dois factores: erro amostral ou mudança nas intenções de voto.

4. Contudo, se obtivermos evoluções semelhantes para os diferentes institutos/empresas ao longo do tempo, então a probabilidade de que essas semelhanças se devam a erros aleatórios diminui, e a probabilidade de que essas evoluções reflictam de facto mudanças nas intenções de voto aumenta.

Vejamos então, por exemplo, o PSD nas sondagens da Eurosondagem e da Aximage (esta última com redistribuição proporcional de indecisos):



É claro que, quando comparamos os resultados dentro de um mesmo instituto de sondagens, as diferenças ao longo do tempo estão dentro da margem de erro. Mas ambas dão uma descida do PSD do início para meados de Dezembro, e relativa estabilidade a partir daí? Coincidência?

Agora, o CDS-PP:



Tendência comum: subida. Outra coincidência?

Agora o BE:



Outra tendência comum: subida a partir do início de Janeiro, seguida de descida recente. Mais uma coincidência?

A CDU:



Os dados são menos coincidentes entre a Eurosondagem e a Aximage, mas creio não cometer grande erro se disser que uma e outra apontam para relativa estabilidade das intenções de voto na CDU.

Onde as coisas variam mais é no caso do PS:



A Eursondagem sinaliza uma descida do PS em meados de Dezembro, seguida de estabilidade. A Aximage adia essa descida para mais tarde, em meados de Janeiro, fazendo-a seguir de uma ligeira recuperação. Assim, no caso do PS, torna-se difícil saber se se estão a detectar evoluções nas intenções de voto ou meras flutuações devidas a erro amostral. Mas nos restantes casos, independentemente das estimativas concretas fornecidas por cada sondagem - que não interessam para este exercício - as evoluções partilhadas por ambas as séries de sondagens são as seguintes:

1. PSD desce em meados de Dezembro, ficando estável a partir daí;
2. CDS-PP em subida desde Dezembro;
3. CDU estável;
4. BE com subida inicial, seguida de descida recente.

Ficamos a saber rigorosamente como têm evoluído as intenções de voto nos últimos dois meses? Não. Mas a incerteza diminuiu um pouco, acho eu.

Enviar um comentário