segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Rescaldo da "mega-fraude"

Aqui, tinha dito que as sondagens publicadas antes destas eleições eram as que menos se distinguiam entre si, pelo menos desde 1991, ficando em aberto a questão se saber se estavam todas igualmente "erradas" ou, no fundamental, igualmente "certas". A questão já tem resposta: as sondagens de 2005 foram as mais precisas alguma vez conduzidas na história da democracia portuguesa.



A "média dos desvios absolutos médios" entre os resultados eleitorais e as estimativas apresentadas pelas sondagens é a menor de sempre: 1% (com Aximage, Eurosondagem e Intercampus com apenas 0,8%). A margem de vitória do PS foi, em média, subestimada em 1,8%, também o menor valor de sempre (sendo que o IPOM a sobrestimou em apenas 0,3%). Afinal, o maior erro destas sondagens pré-eleitorais foi o de terem, em média, sobrestimado o PSD em 1,3%. Ironias do destino.

Deste ponto de vista, as sondagens à boca das urnas divulgadas às 20.0hh desiludem um pouco. Se tomarmos o ponto central de cada um dos intervalos apresentados como representando a "melhor estimativa", quase que se poderia dizer que foram menos precisas que as sondagens de véspera: a "média dos desvios absolutos médios" foi de 1,2% (Intercampus, 0,6%; Católica, 1,2%; Eurosondagem, 1,8%), enquanto que a margem de vitória do PS foi, desta vez, sobrestimada por todos (em média, 4,3%, com a Eurosondagem a sobrestimá-la em 7,3%).

Seria muito importante, aliás, que se reflectisse sobre o efeito que as acusações que foram feitas às sondagens tiveram na subestimação do eleitorado do PSD nas sondagens à boca das urnas, se é que tiveram algum. Quando um líder de um partido acusa colectivamente todas as empresas de sondagens de estarem envolvidas numa "mega fraude", é apenas natural que muitos eleitores desse partido se recusem a colaborar com essas empresas, especialmente quando a escolha dos inquiridos deixa de ser aleatória e passa a depender mais de algum voluntarismo na colaboração à saída dos locais de voto. As consequências mais graves deste tipo de acusações ficam para quem as faz, e a melhor resposta que se pode dar está nos resultados. Mas os institutos também são afectados por estas acusações, não só no que respeita às eleições, mas também em relação a todo um mundo de estudos académicos, de opinião e de mercado. Fazer sondagens depende crucialmente da colaboração dos inquiridos, e houve danos causados pelas afirmações de Santana Lopes que, sendo difíceis de estimar, são certamente reais.

As dúvidas existenciais estão também esclarecidas:

1. Houve maioria absoluta, tal como previsto por seis das sete sondagens. Podia não ter havido, claro. Mas parece-me que, como aqui sugeri, o aumento da participação ajudou. Assim, em grande medida, passou-se o oposto do que tinha sucedido em 1999.

2. Fim da "subestimação do CDS". Duas sondagens subestimaram o CDS, as restantes sobrestimaram-no, e nuns e noutros casos em valores inferiores às margens de erro amostral associadas a cada estimativa.

3. Possível sobrestimação do BE: todos apanharam a subida acentuada do Bloco, uns subestimando-a ligeiramente, outros sobrestimando-a, mas em todos os casos, também dentro da margem de erro amostral associada às estimativas.

Em resumo: continua a tendência de melhoria da precisão das estimativas apresentadas pelas sondagens. Amostras de maiores dimensões, maior esforço em detectar votantes prováveis, baixa da abstenção, quase tudo ajudou.
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