sexta-feira, abril 08, 2011

Um livro




















Uma das leituras que mais me impressionou nos últimos tempos foi a deste livro: The Institutional Foundations of Public Policy in Argentina, de Pablo Spiller e Mariano Tommasi. Este livro é sobre aquilo a que os autores chamam as outer features, os "atributos exteriores", das políticas públicas. Independentemente de serem de "esquerda" ou de "direita", mais ou menos proteccionistas destes ou daqueles sectores, redistributivas ou não (as inner features), há atributos que todas as "boas" políticas públicas têm: estabilidade, para serem credíveis e darem aos agentes económicos horizontes longos de actuação; adaptabilidade, para permitirem reacções a choques económicos ou mudanças tecnológicas; coerência, garantindo articulação entre diferentes agências do estado; aplicabilidade, susceptíveis de recolher o assentimento de interesses e actores capazes de, na prática, subverter a implementação das medidas; e uma característica um pouco mais evanescente, a que os autores chamam intertemporal technical glue: a existência de arenas - no governo, nos partidos, na administração, em think tanks, etc. - onde conhecimento científico é incorporado nas políticas públicas, contribuindo assim para todos os objectivos anteriores (estabilidade, adaptabilidade, coerência e aplicabilidade).

O livro é uma demonstração do que sucede quanto tudo isto está ausente. É também uma investigação sobre o que  leva  a essa ausência: partidos políticos com horizontes temporais de muito curto prazo, exclusivamente motivados por benefícios em termos de cargos e votos, e ausência de instituições capazes de mudar essa estrutura de incentivos. Estes partidos são incapazes de chegar a acordos políticos intertemporais que garantam que a alternância não tenha de significar uma mudança radical de políticas. E são igualmente incapazes de cooperar para que se possa responder a novas circunstâncias económicas com mudanças de políticas que não sirvam para fins exclusivos de oportunismo eleitoral. Nestes contextos, os interesses sociais - empresas e sindicatos - acabam por ser contaminados e por seguir também estratégias não-cooperativas de maximização de benefícios de curto-prazo. O resultado? O default argentino de 2001, uma das motivações iniciais por detrás da escrita deste estudo.

Vale muito a pena ler este livro. Sendo motivado pelo caso argentino, é também, parece-me, um belo retrato daquilo que nos trouxe ao ponto a que chegámos em Portugal.

P.S.- Podem ler um excerto aqui. Um paper que antecipa as ideias fundamentais aqui.

quinta-feira, abril 07, 2011

Alemanha

















Via @bossito.


Bem, esta sondagem é um pouco desviante em relação às outras. Mas é sempre surpreendente ver uma coisa destas.

House effects are in da house

Confrontando os resultados das últimas 4 sondagens com a estimação dos house effects, baseada em todas as sondagens desde 2005, é muito interessante verificar as regularidades:

1. PSD: obtém os melhores resultados com o CESOP e a Intercampus, o que corresponde ao que se deveria esperar na base da estimação dos house effects.

2. PS: obtém os melhores resultados com o CESOP e a Intercampus. Intercampus confirma house effect, mas aqui esperaríamos a Eurosondagem acima do CESOP. Mas isto pode reflectir mudança ao longo do tempo.

3. CDS-PP: obtém os melhores resultados com Aximage e Eurosondagem. Check.

4. CDU: obtém os melhores resultados com a Aximage e a Eurosondagem. Aximage check, mas esperaríamos que Intercampus desse melhor. Mas as diferenças são pequenas.

5. BE: obtém os melhores resultados com Eurosondagem e Intercampus. Intercampus confirma.

Queria relembrar que os house effects estimados não apontam para quem esteja a medir melhor cada partido. Apontam apenas para o facto de haver diferenças sistemáticas entre os institutos, tal como existem em qualquer sítio do mundo onde se façam sondagens.

P.S. - A Marktest pode vir baralhar isto um bocado. Aguardemos...

Gráfico actualizado





















Já inclui as sondagens da Aximage e do CESOP/Católica. Mas ouçam: como me comentavam  no Twitter, as sondagens andam com um prazo de validade baixo. O que se passou ontem pode ter consequências. Tudo depende, mais uma vez, de quem aparece como tendo tido "a culpa".

Não excluo que, para o PS e para o governo, resistir à ajuda externa possa ter resultado da convicção de que essa ajuda seria uma coisa negativa. Mas a verdade é que ter resistido até às eleições teria produzido um outro efeito "benéfico": obrigar a que fosse um futuro governo PSD ou PSD/CDS a trazer o FMI para dentro de casa. Mas isso perdeu-se ontem: foi este Governo que o trouxe. Pode argumentar que foi obrigado a fazê-lo devido à actuação da oposição e do Presidente, claro. Mas o que a sondagem da Católica mostra é que uma maioria relativa clara coloca as culpas no governo caso fosse necessária intervenção externa. Não num qualquer futuro governo, mas neste. Logo, a questão que se segue para as próximas sondagens é perceber o efeito disto.

quarta-feira, abril 06, 2011

Sondagens pós-demissão

PSD: [36,8% - 37,3% - 39% - 42,2%] – amplitude: 5,4 p.p.
PS: [30,1% - 30,4% - 32,8% - 33%] – amplitude: 2,9 p.p.
CDS-PP: [7% - 8,7% - 10,7% - 11,4%] – amplitude: 4,4 p.p.
CDU: [7,1% - 8% - 8,4% - 9%] – amplitude: 1,9 p.p.
BE: [6% - 6,9% - 7,7% - 7,9%] – amplitude: 1,9 p.p.

Surpreendidos que a maior incerteza esteja na estimação dos resultados do PSD e do CDS?

CESOP/Católica, 2-3 Abril, N=1288, Presencial

PSD: 39%
PS: 33%
CDU: 8%
CDS: 7%
BE: 6%
OBN: 7%

Aqui.

Desculpem, mas esta era boa demais para ficar apenas no Twitter

terça-feira, abril 05, 2011

Mais exercícios

Imaginem que têm à vossa frente, numa folha de Excel, os resultados das eleições de 2009, por distrito, assim como os resultados nacionais. Um exercício muito simples que se pode fazer na base disto é supor que uma mudança dos resultados a nível nacional se repercute de forma homogénea por todos os distritos. Há países onde o sistema de partidos de encontra muito "nacionalizado" deste ponto de vista, e outros em que isso não é verdade. Portugal parece, contudo, ter um nível de "nacionalização dinâmica" comparativamente elevado. O que nos deixa um pouco menos inquietos em relação à pressuposição inicial.

O que quer dizer "repercutir de forma homogénea"? No Reino Unido usou-se muito a ideia do uniform swing: se os Trabalhistas descerem 10 pontos a nível nacional, isso significa que desceram 10 pontos em cada distrito. O problema é se há distritos em que os Trabalhistas têm menos de 10% dos votos: ficam com votação negativa? A alternativa mais comum é o proportional swing: se os Trabalhistas têm 10% num determinado círculo e descem de 50% para 40% a nível nacional, não descem 10 pontos no círculo (ficando com 0% dos votos). Descem 20% (não 20 pontos). Por outras palavras, ficam com 8% dos votos nesse círculo onde antes tinham 10%.

Imaginem que pegamos nos resultados nacionais de 2009, nos resultados por distrito de 2009 e na última sondagem da Aximage e presumimos que há um swing nos distritos para todos os partidos proporcional ao swing nacional. Como ficaria o parlamento? Assim:


PSD: 36,8% (102 deputados)
PS: 30,1% (77 deputados)
CDS-PP: 11,4% (22 deputados)
CDU: 9,0% (17 deputados)
BE: 6,9% (12 deputados)

Aliança PCP/PEV/BE?

Nas eleições de 2009, BE e CDU conquistaram, respectivamente, 16 e 15 assentos parlamentares, num total de 31. Imaginem que, em 2009, BE e CDU tinham feito listas conjuntas e conquistavam, em cada círculo, a soma exacta dos votos obtidos pelas duas listas, sem alterações para os restantes partidos. Quantos deputados teria eleito essa lista conjunta?

A resposta é 39, 8 deputados a mais em relação ao que realmente sucedeu em 2009. 4 seriam roubados ao PS (em Viana, Viseu, Setúbal e Beja ),  3 ao PSD (em Aveiro, Coimbra e Faro) e 1 ao CDS-PP (no Porto).

P.S.- Obrigado pelas correcções. Tenho estado a confiar numa macro que tem um problema que, neste caso, deu nisto. Vou corrigir.
P.P.S.- Mergulhando mais no assunto, parece que afinal estava tudo bem com a análise anterior: Porto 2009; Porto 2009 com votos de BE e PCP-PEV somados. Mas vejam lá.

A última sondagem da Aximage

Amavelmente, a Aximage mandou-me os dados completos da última sondagem enquanto o depósito não aparece na ERC. Aqui vai. Entre parêntesis, evolução em relação à sondagem anterior (Março) da mesma empresa:

PSD: 34,8% (-3,1)
PS: 28,4% (+0,5)
CDS-PP: 10,8% (+1,9)
CDU: 8,5% (-2,2)
BE: 6,5% (=)
OBN: 5,5% (+0,4)
Indecisos: 5,5% (+2,5)

Se quisermos tornar estes resultados comparáveis com resultados eleitorais, temos de fazer qualquer coisa aos indecisos. A opção aqui é a mais simples: tratá-los como abstencionistas (opção da minha responsabilidade, e não da Aximage):


PSD: 36,8% (-2,2)
PS: 30,1% (+1,3)
CDS-PP: 11,4% (+2,3)
CDU: 9,0% (-2,0)
BE: 6,9% (+0,2)
OBN: 5,8% (+0,6)

Espero que esteja tudo certo, mas se detectarem erros digam. Como já disse, creio que é cedo para tirarmos conclusões sobre a forma como as atitudes das pessoas podem ou não ter mudado depois do chumbo do PEC e da demissão do governo. Uma sondagem é só uma sondagem. Mas há outro resultado aqui que não é favorável para o PSD: uma queda acentuada da avaliação de Pedro Passos Coelho (de 10,9 em média de 0 a 20 para 8,5). Mas temos de esperar por mais estudos para começar a ficar com uma imagem mais clara.

segunda-feira, abril 04, 2011

House effects

Um dos gráficos anteriores mostra a evolução das intenções de voto em cada partido, de um mês para outro, quando controlamos o facto de cada sondagem ter sido feita por uma empresa diferente. Por outras palavras, estima-se um valor para cada mês através de uma regressão sem constante que tem variáveis mudas identificando cada empresa e cada mês, mantendo uma das empresas como categoria de referência (neste caso, a Eurosondagem, por ser a que divulgou mais estudos). Isto faz sentido apenas na medida em que queiramos ter uma ideia da evolução ao longo do tempo sem estarmos dependentes do facto de diferentes empresas fazerem estudos em momentos e em quantidades diferentes, e tomando em conta o facto conhecido de que, pelo conjunto de escolhas técnicas e práticas que adoptam, cada empresa poder ter uma tendência para valorizar mais uns partidos e desvalorizar outros.

Um dos outputs interessantes desta análise mostra-nos que tendências são essas para cada empresa. Os gráficos seguintes mostram os house effects de cada empresa em relação a cada partido em comparação com a Eurosondagem. É muito importante perceber o que isto diz. Estes gráficos não mostram que esta ou aquela empresa subvaloriza ou sobrevaloriza cada partido em comparação com a "realidade". Eles não fazem a mais pequena ideia do que poderá ser a "realidade". Eles comparam os resultados obtidos por quatro empresas em comparação com uma outra empresa, escolhida apenas por ser aquela que tem mais sondagens feitas. E eles não sugerem que há enviesamentos deliberados, mas apenas que pode haver uma relação entre procedimentos adoptados e os resultados que se estimam para cada partido, independentemente do momento em que as sondagens foram feitas. As linhas de erro representam intervalos de confiança de 95%





Sondagens: ponto de situação

O primeiro gráfico é o habitual, mostrando todas as sondagens de intenção de voto desde 2005 até ao momento e um smoother de 25% (a última sondagem da Aximage não está incluída, à espera de que possa fazer uma redistribuição de indecisos na base da informação no depósito na ERC):


De Janeiro de 2010 até agora, um zoom sobre PS e PSD e smoother mais sensível (10%). A linha vertical a tracejado é a demissão de Sócrates, mostrando como é fútil tentar, neste momento, detectar mudanças posteriores.


















Novo zoom, desta vez sobre CDS-PP, CDU e BE.



















Finalmente, os resultados por mês controlando "house effects":

sábado, abril 02, 2011

Compensa assinar o Público?

Segundo Rita Brandão Guerra, no Público, "as duas sondagens mais recentes (Intercampus e Eurosondagem), ambas divulgadas após a demissão de José Sócrates, mostram que o PSD entra em queda relativamente aos resultados que obtinha antes do chumbo do PEC IV, por um lado, e ao anúncio da demissão de Sócrates, por outro."

Ora vejamos:

Evolução PSD na Eurosondagem: +0,4
Evolução PSD na Intercampus: +5,4 se compararmos com Janeiro (presencial) e +0,6 se compararmos com Dezembro (telefónica)

Compensa assinar o Público?

Aximage, 28-30 Março, N=600, Tel.

PSD: 34,8%
PS: 28,4%
CDS-PP: 10,8%
CDU: 8,5%
BE: 6,5%

Aqui.

A soma disto é 89%, pelo que, nos 11% em falta, deverão estar outros partidos, brancos, nulos e indecisos. Mas quantos de cada? A notícia não diz. Temos de aguardar pelo depósito na ERC. Ainda estou para ver em que século é que a ERC tenciona obrigar os jornais a publicarem os resultados brutos, tal como obriga a lei. A não ser que notícias online não contem.

É a primeira sondagem em muito tempo com más notícias para o PSD. Pode ser um outlier.

sexta-feira, abril 01, 2011

Eurosondagem, 27-30 Março, N=1021, Tel.

Intenções de voto após redistribuição proporcional de indecisos. Entre parêntesis, comparação com resultados de sondagem anterior:

PSD: 37,3% (+0,4)
PS: 30,4% (-0,2)
CDS-PP: 10,7% (+0,8)
CDU: 8,4% (-0,2)
BE: 7,7% (=)

Aqui.

domingo, março 27, 2011

Intercampus, 24-26 Março, N=805, Tel

PSD: 42,2%
PS: 32,8%
CDS-PP: 8,7%
BE: 7,9%
CDU: 7,1%

Aqui.

P.S.- Um leitor estranha que a comparação na notícia seja feita não com a última sondagem da Intercampus, mas sim com uma sondagem anterior. Creio que isso decorre do facto de a última sondagem da Intercampus, de Janeiro, utilizar entrevistas presenciais em vez de inquérito telefónico. Mas façamos então a comparação com sondagem mais recente da Intercampus (Janeiro):

PSD: +5,4 (tinha 36,8%)
PS: +2,0 (tinha 30,8%)
CDS-PP: +2,9 (tinha 5,8%)
BE: +0,6 (tinha 7,3%)
CDU: = (tinha 7,1%)

Como é? Todos sobem (e um mantém)? Uma pista possível é que, na sondagem anterior, a Intercampus registou 9,1% de votos brancos e nulos e 3,1% para outros partidos.

quinta-feira, março 24, 2011

Incerteza (último)


















Finalmente, temos este gráfico, claro. Boas perspectivas para o PSD. Mas se fizermos aqui um zoom no ano de 2009 e aumentarmos a sensibilidade do smoother...


















As circunstâncias hoje são completamente diferentes, muito mais favoráveis ao PSD. Mas algures em 2009, muita gente - provavelmente no próprio governo - se terá convencido, por volta das europeias, que o desfecho das legislativas era a inevitável vitória do PSD. Em dois meses, a ilusão ficou desfeita.

Tudo isto para dizer que gostava de poder dar certezas, mas não posso. Gostaria que das próximas eleições resultasse uma solução de governo clara, e já cheguei ao ponto em que gostaria que fosse clara fosse ela qual fosse. Mas acho que temos boas razões para, pelo menos, pensar duas vezes.

Incerteza 4: simpatias partidárias.

Outra predisposição relevante é a identificação com um partido. Identificar-me com um partido significa sentir-me próximo dele em comparação com outros, ter por ele uma simpatia especial, uma tradição de proximidade e empatia. Em Portugal, há pouco disto. Mas há algo. E a esmagadora maioria da pessoas que a têm acabam por votar nesse partido. Pode acontecer muita coisa. Mas se o nosso partido nos der uma boa versão dos acontecimentos e se nos activar contras as versões dos outros, a coisa, no fim, acaba por se reconduzir ao nosso "estado normal": essa simpatia. Em Portugal, como é?
















Isto já era sim em 2005, tal e qual. Pode ter mudado desde 2009? Pode. Mas o facto de não ter mudado de 2005 para 2009 sugere que, claro, também pode não ter mudado desde então. E se não mudou, o PSD parte para a eleição, deste ponto de vista, com uma segunda desvantagem estrutural (para além da explicada no post anterior).

Incerteza 3: ideologia

As campanhas, as pessoas, os eventos e as campanhas contam. Mas os eleitores não partem "virgens" para as campanhas. Têm predisposições, à luz das quais avaliam tudo o resto . Uma dessas predisposições pode aferir-se à luz do seu posicionamento ideológico. E aqui as coisas complicam-se para o PSD.

Este gráfico mostra onde o eleitor mediano se posiciona numa escala de 0 a 10 (em que 0 significa a posição mais à esquerda e 10 mais à direita) e onde o eleitorado português posiciona os partidos (os dados são dos inquéritos pós-eleitorais do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugueses):















O PS é o partido do eleitor mediano. PSD é visto como estando longe do centro, e cada vez mais próximo do CDS. Isto é para todos os eleitores. O gráfico seguinte mostra os mesmos dados, desta vez apenas para os eleitores que se descrevem como estando no "centro" (pontos 4, 5 e 6):
















Apenas o PS é visto como estando dentro do campo ideológico dos eleitores centristas. PSD à direita, indistinguível do CDS. Boas notícias para o CDS, porventura. Menos boas para o PSD.

Se calcularmos a distância média entre a posição de cada eleitor e a posição que atribui a cada partido, o que vemos?
























Distância aumenta desde 2002 para PSD e PS, diminui para pequenos partidos, o que ajuda a explicar as últimas tendências eleitorais. Mas, em média, os eleitores colocam o PSD mais longe das suas posições ideológicas do que o PS.

"Ideologia" é uma coisa complicada que uma posição sumária numa escala de 0 a 10 pode captar mal. Um passo na direcção da especificação da coisa consiste em pedir opiniões sobre temas concretos:















Esquerda, esquerda, esquerda e, na maior parte dos casos, cada vez mais esquerda (se bem que algumas mudanças careçam de significância estatística). Eu sou daqueles que acham que as respostas às sondagens, assim como as respostas às propostas políticas concretas, dependem muito do enquadramento que lhes seja dado. Por outras palavras, eu acho que isto não é um retrato único, perfeito ou inamovível da realidade. Mas que é um retrato mau para um partido de centro-direita, lá isso é.

Incerteza 2: a avaliação do governo.

Sabe-se que os eleitores são retrospectivos e castigam e recompensam os governos em eleições. Logo, a avaliação que fazem do governo há-de contar para qualquer coisa. E nesse capítulo, as notícias para o PS são péssimas:

1. Católica, Outubro de 2010: 80% (oitenta) consideravam o desempenho do governo "mau" ou "muito mau" (41% "muito mau").
2. Aximage, Marco de 2011: 50% consideravam a actuação do governo pior do que aquilo que esperavam.
3. Eurosondagem, Fevereiro de 2011: 44% de opiniões negativas sobre actuação do governo, contra 19% de opiniões positivas.

Dito isto, atenção ao seguinte:
1. Novamente, estamos a falar da totalidade da amostra, e não de presumíveis votantes.
2. Católica em Outubro: apenas 25% dos inquiridos dizem achar que um partido da oposição faria melhor se estivesse a governar.

E outra coisa interessante dessa sondagem da Católica: questionados sobre as medidas propostas no Orçamento de Estado na altura, aquela que, de longe, mais pessoas diziam que as iria afectar directamente e às suas famílias (79%) e que seria mais difícil para os afectados (76%) era...o aumento do IVA. Para compararmos, 32% diziam que um possível congelamento de pensões os iria afectar e 36% a seleccionavam como sendo uma das mais difíceis para os afectados. O que, em conjugação com as notícias de hoje e recordando também o episódio da revisão constitucional, confirma que o PSD se pode descrever, do ponto de vista estrito do pragmatismo eleitoral, como uma agremiação de suicidas. Isto não implica, note-se, e muito sinceramente, qualquer juízo da minha parte sobre a justeza ou necessidade da medida.

Finalmente, regresso ao início: o "castigo" e a "recompensa" decorrem, evidentemente, de uma avaliação de responsabilidades. Já se percebeu que todo o discurso político do PS vai estar orientado para fornecer considerações aos eleitores que os levem a valorizar a "responsabilidade" (ou "culpa", "imaturidade", "irresponsabilidade") do PSD pela "perda de face" causada pelo pedido de ajuda financeira à Europa e ao FMI e pelas medidas alegadamente mais gravosas que terão de resultar desse pedido de ajuda. Previsivelmente, o PSD tentará colocar a "culpa" da situação do país em toda a actuação do governo até ao momento, e há sinais claros de um outro elemento desse discurso: afinal, a situação do país é ainda mais grave do que o Governo dizia. E a esquerda colocará a culpa de tudo isto nas medidas já aplicadas pelo governo, com a colaboração anterior do PSD, e nas regras impostas do exterior. Este vai ser o combate retórico mais importante desta campanha, e não faço a mínima ideia sobre qual será o seu desfecho.

Incerteza 1: a popularidade dos líderes.

Incrivelmente, a apresentação do PEC 4, o debate que se seguiu e o desfecho de ontem ocorreram sem que tivesse sido, que eu saiba, conduzida uma única sondagem sobre o tema para divulgação pública. Pelos vistos, as empresas e os órgãos de comunicação social andaram entretidos, respectivamente, a fazer e encomendar sondagens sobre o Sporting. São opções. Isto significa, contudo, que a reacção da opinião pública ao que se passou é impossível de aferir neste momento. Talvez aqui a dias saibamos qualquer coisa.

Mas por outro lado, talvez não seja mau de todo. Sem informação de curtíssimo prazo, podemos concentrar as atenções em factores de menos curto ou até longo prazo que nos permitam, se não antever o que se vai passar, pelos menos ter uma ideia dos possíveis cenários. Dos factores conhecidos, o de mais "curto-prazo" é a popularidade dos líderes.

Aqui, as notícias são más para o PS. Na última sondagem da Marktest, 70% dos inquiridos tinham opinião negativa sobre José Sócrates, contra 18% de opiniões positivas. Na Aximage, Sócrates tem uma avaliação média de 6,8 em 20 pontos possíveis. Na Eurosondagem, onde os números lhe são menos desfavoráveis, o saldo entre opiniões positivas e negativas é de menos de 5 pontos. Na última sondagem da Católica - de Outubro, há tanto tempo! - a avaliação média do PM era de 6,5 pontos em 20 e apenas 35% dos inquiridos lhe davam uma nota de 10 ou mais.

Dito isto, a verdade é que nenhum dos líderes político-partidários é particularmente bem visto. Na Marktest, Pedro Passos Coelho aparece com tantas opiniões positivas como negativas e uns perturbantes 29% que "não sabem". Na Eurosondagem, o saldo para Passos Coelho é praticamente igual ao de Sócrates. É na Aximage e na Católica que o líder do PSD aparece mais bem avaliado comparativamente a Sócrates. Mas na Católica essa avaliação média é ainda negativa (9,2 de 0 a 20) enquanto que na Aximage, apesar de ser positiva (10,6 de 0 a 20) está bem abaixo dos valores de há um ano atrás.

Acresce a isto que estes valores são obtidos de "amostras totais", e não necessariamente dos presumiveis votantes. Muita desta negatividade pode estar concentrada em eleitores que não tencionam votar. A avaliação dos líderes conta muito, sabemos, nas escolhas eleitorais. Mas é também a mais volátil das variáveis explicativas do voto, num certo sentido demasiado próxima do próprio voto. É preciso olhar para outras coisas.

segunda-feira, março 21, 2011

Baden-Württemberg




















O estado em que estou agora, Baden-Württemberg, tem eleições para a semana, dia 27. Actualmente, o governo é uma coligação entre a CDU e o FDP. A CDU governa há décadas. Mas as coisas estão complicadas.

Primeiro foi o assunto Stuttgart 21, um mega-projecto de construção e urbanização que gerou enorme contestação. Verdes e Linke estão contra. E agora é o tema "nuclear". Stefan Mappus, o Ministro-Presidente, tem sido um dos mais vigorosos defensores da extensão da vida das centrais, coisa que lhe encaixa muito mal agora. Merkel bem tentou limitar os danos, mas pode ser tarde. Nas últimas sondagens, os Verdes ultrapassaram o SPD e aparecem agora em 2º lugar nas intenções de voto. Podemos ter, pela primeira vez, os Verdes à frente de um governo estadual. E para a CDU, perder um bastião de mais de 50 anos seria a pior notícia dos últimos meses. Não necessariamente o fim, mas uma péssima notícia.

Para os jornalistas do Público


O Margens de Erro é um exclusivo dos Assinantes Margens de Erro



Caros jornalistas do Público: a partir de hoje leiam o Margens de Erro em formato de e-blogue, uma mudança absolutamente revolucionária na comunicação digital. O sistema de assinaturas foi ligeiramente, vamos chamar-lhe assim, "modificado". Assinem o Margens de Erro Digital a partir de 2,30 € e acedam a todos os conteúdos exclusivos que tenho para vocês. Por 2,30€ por semana podem ler o blogue a qualquer hora do dia e pesquisar posts antigos. Mas por 5,74€ por semana, para além do que está acima, até me podem telefonar a perguntar se eu acho que o estado do tempo previsto para esta semana tem alguma relação com a probabilidade de demissão do governo, que eu até faço de conta que a pergunta tem resposta e digo-vos tanta coisa que o artigo fica logo escrito. Nem precisam ligar a seguir para o José Adelino Maltez e podem dizer na mesma que falaram com "politólogos" porque eu falo em nome de "Pedro Magalhães" e de "Pedro Coutinho" (e se quiserem controvérsia até digo coisas contraditórias). Como vêem, 5,74€ é pouco dinheiro mas rende bastante.

Caso decidam não assinar, peço-vos que não olhem para os gráficos, não leiam análises de resultados de sondagens e não me sigam a timeline no Twitter. E ainda que retirem do lado direito da página do Público a frase "O seu Jornal do dia é lhe oferecido por:" e por baixo a publicidade do Barclaycard. Ou que escrevam "é-lhe" em vez de "é lhe". Ou "vendido" em vez de "oferecido". Enfim, o que acharem melhor.

Deste vosso admirador e ainda leitor,
Pedro Magalhães

P.S.- Para uma reacção realmente com graça à nova paywall do NYT, ver aqui.

domingo, março 20, 2011

Por que a razão a política não é atraente (ou não é atraente para as pessoas certas)?

É das perguntas que mais me fazem. Mas quem responde, e bem, é Medeiros Ferreira:

"As pessoas com mais qualidade afastaram-se da vida política?

O poder político perdeu poder. Com a entrada de Portugal no sistema monetário europeu e a privatização da banca passou-se da república dos empresários para a república dos financeiros, que tem várias expressões, mas enfraqueceu o poder político, que é visto muitas vezes como uma espécie de epifenómeno dos grandes grupos financeiros ou muito dependente dos grandes negócios.

E é dependente dos grandes grupos financeiros?

Portugal é um país onde não há crescimento económico, mas onde há grandes negócios, e isso enfraqueceu o poder político. O resultado é que muita gente deixou de ir para a política. Se o poder político é uma espécie de epifenómeno, as pessoas afastam-se, porque não se querem sujeitar a estar ao serviço de outras coisas que não sejam as suas próprias convicções. Por outro lado, a actividade política - e vou dizer uma coisa muito impopular - não tem boas condições materiais de atracção.

Os políticos ganham mal?

Não há condições de poder, porque está enfraquecido, e não há condições materiais de atracção para pessoas que estejam disponíveis para ser úteis e não ficar numa situação de dependência. Por outro lado, há o próprio funcionamento interior dos partidos, que vai gerando uma espécie de terceira geração de dirigentes, que já andam nisto há 30 anos e têm uma noção burocrática do modo de fazer política.



Os partidos políticos não estão também muito fechados, sem capacidade para reflectir sobre os novos problemas? O PS tem as Novas Fronteiras...
Isso não existe. É só para aparecer na televisão, mas não é só o PS. O PSD é a mesma coisa. E não foi só o PS que deixou de pensar o país. Eu quase me comovo quando vejo um grupo a estudar o país. Já não há pensamento estratégico sobre o país e não há um pensamento estratégico que parta do plano nacional para se entender como Portugal se deve inserir na integração europeia. "


No jornal i.

Ninguém disse que isto tinha de ter lógica

"Paulo Portas falou para os que ainda acreditam em sondagens (...)  [e] pediu um voto reforçado no CDS para que o partido consiga descolar do BE e do PCP nas sondagens." 


In Público.

quarta-feira, março 16, 2011

Sondagens e resultados eleitorais em Portugal

Já está no correio para distribuição e estará em breve disponível no site da Sociedade Portuguesa de Estatística o Boletim da SPE da Primavera de 2011, dedicado ao tema Sondagens e Censos. Tem quatro artigos sobre o tema "sondagens": dois são de Manuela Magalhães Hill e de Paula Vicente (a primeira é co-autora de um dos livros em português de que mais gosto sobre inquéritos por questionário), um dando uma perspectiva histórica sobre as sondagens e outro discutindo problemas e implicações da utilização de telemóveis e da internet, assim como da adopção de sondagens mixed-mode. Outro é de um colectivo de autores, liderado por Sandra Aleixo, e aborda o tema dos "erros não amostrais". Finalmente, há um quarto artigo, escrito por mim, pelo Luís Aguiar-Conraria e pelo Miguel Maria Pereira, estudante de mestrado do ICS. É sobre este último artigo que gostaria de falar um pouco.

Em 2009, a ERC encomendou um relatório sobre as sondagens em Portugal, que fazia algumas constatações sobre divulgação/depósito dos resultados das sondagens, sobre as próprias sondagens e seus resultados e algumas recomendações. Na altura, discuti aqui, aqui e aqui este documento, e fui especialmente crítico da análise feita acerca das sondagens, suas características e sua relação com as discrepâncias entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições. Este artigo para o Boletim da SPE, intitulado "As sondagens e os resultados eleitorais em Portugal", é a nossa proposta sobre como esse tipo de análise pode e deve ser feita.

O que fazemos? Basicamente, pegamos nos resultados de todas as sondagens de intenção de voto divulgadas na imprensa nos últimos 100 dias antes das eleições legislativas de 1991, 1995, 1999, 2002, 2005 e 2009, europeias de 1994, 1999, 2004 e 2009, e autárquicas de 2005 e 2009. No total, 287 sondagens. Com base nestes resultados, estimamos duas grandezas:

1. O desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições a que dizem respeito.
2. O desvio, por partido ou lista conjunta, entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições a que dizem respeito.

E procuramos responder a duas questões:

1. Que factores contribuem para que o resultado de uma sondagem esteja, em média, mais ou menos próximo do resultado da eleição a que diz respeito?
2. Que factores contribuem para que o resultado de uma sondagem acabe por constituir uma sobrestimação (ou subestimação) do resultado de um determinado partido?

Sei que muitas das pessoas que visitam este blogue o fazem por razões que vão para além de saber "quem vai à frente nas sondagens" e que se interessam por estes temas. Gostávamos muito de ter os vossos comentários, sugestões e críticas.

sexta-feira, março 11, 2011

Ponto de situação

A pedido de várias famílias, uma actualização.
Estimativas de intenção de voto (2005-2011)


Estimativas de intenção de voto (2009-2011)




sábado, fevereiro 26, 2011

Mega-fraude

Leio no Expresso que Pedro Santana Lopes terá dito que, com Rui Rio na liderança em vez de Pedro Passos Coelho, o PSD "estaria muito mais destacado nas sondagens".

Deixem-me reescrever a frase. Leio no Expresso que Pedro Santana Lopes, que ganhou (oficialmente) uma eleição popular na vida, que foi Primeiro-Ministro durante alguns meses em substituição de Durão Barroso, que foi sumariamente despedido da função com o aplauso de uma parte substancial do eleitorado do seu próprio partido e que classificou as sondagens que correctamente descreveram a sua subsequente derrota nas legislativas - uma das piores da história do PSD - como uma "mega-fraude", terá dito que, com Rui Rio na liderança, o PSD teria resultados nas sondagens superiores àqueles que hoje lhe dão, em média, 12 pontos de vantagem sobre o PS.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O trabalhão que vocês me dão

A dimensão dos parlamentos, 2

O gráfico no post anterior suscitou vários comentários no que respeita à validade da medida, quer aqui quer noutros blogues. Se alguns destes países têm câmaras altas, não seria de incluir os seus membros na análise? Vejamos primeiro o que resulta daí:



Em comparação com o gráfico anterior vemos, por exemplo, que Portugal sobe - se se pode dizer assim - no ranking dos países com menos deputados em relação à sua população, por ter um parlamento unicamaral. Já o Reino Unido, por exemplo, desce bastante, por ter uma Câmara dos Lordes com nada menos que 733 membros, e o mesmo sucede com a França, ainda que em menor grau.

Não digo que não seja vantajoso ver as coisas desta forma também. Mas há um problema em incluir 2ªs câmaras. Há parlamentos com bicamaralismo simétrico - duas câmaras com poderes equivalentes, tal como em Itália - e outros com bicamaralismo assimétrico - onde a câmara baixa é predominante, tal como em Espanha. Enquanto que se pode genericamente dizer que todas as câmaras baixas têm poderes equivalentes - há diferenças, mas são, deste ponto de vista, finas - o mesmo não se pode dizer sobre as câmaras altas. Ainda por cima, enquanto os membros das câmaras baixas são invariavelmente eleitos - em eleições mais ou menos livres e justas, agora não vem ao caso - o mesmo não sucede com os membros das câmaras altas. Em Espanha, para não ir muito mais longe, uma parte do Senado não é eleita directamente. E no Reino Unido, não há um único membro eleito.

Isto é um problema? Depende da perspectiva e daquilo que se quer fazer com os dados. Mas como eu não quis fazer nada com eles para além de os dar a conhecer, agradeço os comentários e a oportunidade de os mostrar deste segundo ponto de vista.

Houve ainda quem tenha assinalado a existência de parlamentos sub-nacionais e de como a sua não inclusão nestas contas invalida a comparação. Aí terei de discordar. Acharia muito interessante que se recolhessem dados que comparem a dimensão total do pessoal político eleito em diferentes países (talvez existam). E é provável que haja uma correlação negativa entre a dimensão relativa dos parlamentos nacionais e a existência e número de deputados sub-nacionais. É óbvio que, para países muito grandes, este rácio população/deputados deverá sempre ser maior que para países pequenos, quanto mais não seja por limitações físicas quanto ao número de pessoas que se consegue pôr num parlamento. E países de grandes dimensões tendem também, naturalmente, a ter divisões territoriais políticas sub-nacionais e, logo, órgãos representativos a esse nível. Etc. Mas dizer que não se pode comparar a dimensão relativa dos parlamentos nacionais sem tomar em conta deputados sub-nacionais é a mesma coisa que dizer que não se pode contar o número de laranjas numa caixa sem contar também as maçãs. São ambos frutos, mas frutos diferentes.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

A dimensão dos parlamentos

A propósito destas afirmações de Jorge Lacão, defendendo uma redução do número de deputados de 230 para 180, um gráfico rapidamente cozinhado a partir da base de dados da União Interparlamentar e da Wikipedia (população): para cada país europeu, a população a dividir pelo número de deputados na câmara baixa (ou única, em países unicamarais), em milhares. Portugal aparece duas vezes, com 230 e 180:

terça-feira, janeiro 25, 2011

Os mistérios insondáveis da abstenção em Portugal

"É difícil traçar um perfil do abstencionista. Falta em Portugal um instituto de estatística de opinião, uma entidade estatal que faça inquérito sistemáticos aprofundados - as empresas de sondagens são privadas e funcionam à velocidade que os media e os partidos precisam delas."

Eu concordo que falta sempre muita coisa para qualquer coisa. Mas também não é preciso exagerar (se me perdoarem os shameless plugs pelo meio):

1.  As eleições de 25 de Abril: geografia e imagem dos partidos.
2. Geografia Eleitoral.
3. L'abstention electorale au Portugal : 1975-1980.
4. Atitudes, opiniões e comportamentos políticos dos portugueses : 1973-1993 : cultura política e instituições políticas, evolução e tipologia do sistema partidário, afinidade partidária e perfil dos eleitores.
5. Desigualdade, desinteresse e desconfiança: a abstenção nas eleições legislativas de 1999.
6. Participação e abstenção nas eleições legislativas portuguesas, 1975-1995.
7. A abstenção eleitoral em Portugal.
8. Redes sociais e participação eleitoral em Portugal.
9. A abstenção nas eleições legislativas de 2002.
10. O exercício da cidadania política em Portugal.
12. Declining Portuguese voter turnout: political apathy or methodological artifact?
12. Second Order Elections and Electoral Cycles in Democratic Portugal, 1975-2002.
13. Portugal at the Polls.
14. Quem se abstém?

Para não falar das coisas ainda mais interessantes, as que comparam a abstenção em Portugal com as de outros países em diferentes eleições, e que são tantas, tantas, mas tantas que me limito a pôr isto. E também não vejo de onde vem a coisa da "entidade estatal". Que "instituto estatal" foi preciso nos Estados Unidos para produzir estas 90.000 referências?

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Marktest, 14-16 Jan, N=802, Tel.

PSD: 46%
PS: 26%
CDU: 7,8%
CDS-PP: 7%
BE: 6%

Aqui.

Intercampus, 16-19 Jan, N=1004, Presencial

PSD: 36,8%
PS: 30,8%
BE: 7,3%
CDU: 7,1%
CDS-PP: 5,8%

Aqui.

Eurosondagem, 19-21 Jan, N=1548, Tel.

PSD: 37,4%
PS: 30,3%
CDS-PP: 9,6%
BE: 9,3%
CDU: 8,4%
OBN: 5,0%

Aqui.

Rescaldo

Sondagens pré-eleitorais. Se compararmos os resultados das sondagens com os resultados nacionais, ficamos assim:






Mas tendo em conta que as sondagens foram conduzidas no continente, e que houve diferenças consideráveis entre os resultados eleitorais no continente e os resultados nas regiões autónomas, uma comparação mais adequada será esta:






Sem surpresas, o desvio entre intenções de voto e resultados eleitorais diminui quando os resultados de referência são os do continente, ou seja, os do verdadeiro universo das sondagens em causa.

O mesmo género de fenómeno ocorre nas sondagens à boca das urnas:


Comparar com 2001 (aqui e aqui) e com 2006 (aqui e aqui).

O Luís aborda a nossa previsão aqui e aqui.

E dois prémios:

1. Prémio A nossa sondagem é a melhor exceptuando aquela outra.

2. Prémio Melhor peça jornalística sobre sondagens escrita com gerador de palavras aleatórias.

Calamidades que por acaso não aconteceram

Ontem, o MAI desvalorizou o impacto na abstenção das dificuldades sentidas pelos portadores do cartão do cidadão: "Este problema só se verificou a partir das 13h00 e ao meio-dia já tínhamos uma afluência menor do que a de 2006 e não havia nenhum problema".

Mas o verdadeiro problema, claro, não tem nada a ver com a abstenção. Tem a ver com a possibilidade de que tivessem ocorrido os seguintes resultados eleitorais:

Cavaco: 50,1%

Cavaco: 49,9%

Cavaco: menos de 50.
Alegre: 19,8%
Nobre: 19,7%

Imaginem o problema que teríamos em mãos neste momento se uma destas coisas tivesse acontecido...

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Resumindo e concluindo

Como costuma suceder, há uma convergência (relativa) das sondagens nesta fase final. Quatro colocam Cavaco Silva abaixo dos 60%, depois de meses onde foi frequente encontrar resultados completamente discrepantes. Quatro colocam Alegre algures entre 20 e 25%. Todas colocam Nobre acima dos 10%. Quatro colocam Francisco Lopes acima dos 5%. Há casos onde as diferenças entre as últimas cinco sondagens são, tomando em conta a dimensão das amostras, estatisticamente significativas. Mas são raros. A Marktest, claro, está aqui um pouco como outlier. Mas também já estava nas Europeias e depois foi o que se viu. Cuidado com as precipitações.

Nos comentários perguntam-me muito se acho que estes resultados sugerem que Cavaco Silva se salvará de uma 2ª volta. É uma pergunta interessante, porque denuncia o que me parece ser uma boa tendência: uma abordagem mais informada e realista das sondagens. Ninguém colocou este tipo de pergunta nas últimas Europeias. Mas as pessoas vão percebendo que há eleições onde só se pode ficar muito surpreendido se os comportamentos das pessoas no dia das eleições acabarem por ser muito diferentes das intenções captadas através de as amostras  antes das eleições. É esse o caso das legislativas, ou das presidenciais onde o presidente em exercício não concorre, mais competitivas e com menor abstenção. E vão também percebendo que há outras eleições onde os comportamentos dos eleitores - votar ou não votar, votar em quem - podem acabar por ser relativamente diferentes das intenções captadas em sondagens. Desde que tenho este blogue - há seis anos - venho avisando que isso tende a acontecer mais em eleições com favoritos claros e elevada abstenção. É o caso destas presidenciais, assim como - pelo lado da abstenção sempre, e pelo lado dos favoritos claros algumas vezes - as europeias. É por isto que nos devemos tentar recordar das presidenciais de 2001. Em média, as estimativas de intenção de voto para Sampaio andavam pelos 65%, mas o resultado das eleições esteve 10 pontos abaixo. Muitas pessoas se lembraram disso nesta campanha, e é bom que nos preparemos para a possibilidade de um fenómeno semelhante.

Mas prepararmo-nos para um fenómeno semelhante não significa que ele vá acontecer. As empresas de sondagens sabem perfeitamente disto e têm teorias, mais ou menos desenvolvidas, sobre as razões por que estas coisas sucedem. Logo, é natural que introduzam alterações na maneira como fazem as coisas para evitarem discrepâncias entre intenções de voto e comportamentos. A alteração com maiores efeitos potenciais, creio, é tentar ter um bom "modelo" (mais ou menos complexo) do que é um votante provável. Sabemos que muitas pessoas que nos dizem que irão votar não o vão fazer, e isso é tanto mais verdade quanto menos competitiva e mobilizadora for a eleição. Se essas pessoas foram diferentes daqueles onde há consistência entre intenções e comportamentos, o resultado inevitável são desvios para além do que seria justificável à luz do erro amostral. Mas o que lhes fazer, como apurar o que é uma intenção que se realizará com elevada probabilidade, o que fazer aos que se declaram indecisos, são opções que não estão escritas na pedra: estudam-se, debatem-se, aprendem-se, adaptam-se e permanecem controversas. Para além disso, as empresas lutam contra uma tendência crescente: erros de não-contacto e erros de não-resposta, ou seja, a dificuldade cada vez maior em contactar aqueles que deveriam ser inquiridos e obter deles colaboração para a realização das sondagens. As últimas europeias sugerem que, sejam quais foram as soluções que tenham sido adoptadas, estão longe de serem infalíveis. E sugerem também que, em última análise, pode não haver nada a fazer, em determinadas circunstâncias, para vencer o incontornável: uma sondagem mede intenções e os resultados eleitorais resultam de comportamentos posteriores. Intenções comportamentais e comportamentos são coisas muito fortemente relacionadas, mas diferentes e não perfeitamente relacionadas, como de resto a investigação sobre o comportamento dos consumidores já aprendeu há muito tempo.

Tudo isto para dizer que devemos estar preparados para tudo. A minha impressão - mera impressão - é que o fenómeno de "sobrestimação" (vamos chamar-lhe assim) do vencedor não deverá ter o mesmo tipo de magnitude que teve em 2001, em parte porque acredito que as empresas estão a tomar medidas no sentido de melhorar a forma como lidam com a inconsistência dos eleitores e em parte também devido àquilo que expliquei logo de início: se os apoiantes do favorito tiverem desta vez a noção de que a vitória à 1ª volta não está garantida pelas sondagens, é natural que não se desmobilizem da mesma forma. Mas veremos se a minha impressão se confirma. E outra coisa que me deixa muito curioso é saber como se vai portar isto. Looking good.

E o resto é votar no Domingo e pronto.

Tendências




















A ausência de José Manuel Coelho não é má vontade, mas apenas consequência de haver muito poucas observações e muito concentradas no tempo. Não faria sentido incluí-lo.

P.S. - A nova versão, com legenda, é dedicada ao @brunolucas.
P.P.S. - E a linha dos 50% ao @ssn. Mais pedidos?

Quadro final

A sondagem do Metro

Perguntam-me o que acho da sondagem do Metro: esta. O jornal explica que é uma sondagem a leitores, e faz bem. É pena isso não estar assinalado na 1ª página e aparecer enterrado num textinho na página 3, mas enfim. O texto confunde os conceitos de amostra e universo e diz que houve o cuidado de colocar a ordem dos candidatos igual à dos boletins, o que é engraçado, como se isso pudesse ser o maior problema desta brincadeira.

Mas notem o seguinte. Todas as amostras são, de certa forma, voluntárias, pelo que todas têm enviesamentos, representando quem quer responder a sondagens e não a população em geral. Infelizmente, com o aumento das recusas e com a dificuldade em contactar as pessoas, começa a suceder que a diferença entre as sondagens a sério e isto que o Metro aqui faz se está a tornar cada vez menos uma diferença de espécie e cada vez mais uma mera diferença de grau.

O que, por sua vez, tem feito com que alguns pensem que seria melhor assumir as limitações disto tudo, aproveitar a internet e corrigir as distorções com ponderadores. E foi assim que nasceu a You Gov. Nada mau. O futuro talvez passe por muitas coisas como este Metro Life Panel, se bem feito, naturalmente (não estou a dizer que não seja. Não faço ideia).

Uma ideia genial

Pelo menos desde as 23.00h de ontem (como se comprova por este tweet), o jornal Sol tinha na sua 1ª página resultados do que parecia à primeira vista ser uma sondagem. Mas lendo com atenção essa 1ª página, começa-se a inferir algo que depois se confirma na leitura do artigo da autoria do jornalista Manuel Magalhães (sem relação): o Sol não fez qualquer sondagem, e o que apresenta é uma média de cinco sondagens. Há alguns erros na tabela apresentada (não há nenhuma sondagem da Católica que dê 66,7%  a Cavaco Silva, etc.) mas os resultados das últimas cinco parecem correctos.

É uma ideia genial. Na 1ª página, o que parece ser uma sondagem, mas realizada a custo zero. E ainda por cima, a "sondagem" do Sol não vai ser, de certeza absoluta, a mais afastada dos resultados do dia 23. Gente esperta.

Mas espera: os resultados da sondagem da Aximage só foram publicados no Correio da Manhã de hoje. E a sondagem da Católica às duas da manhã de hoje. E a da Eurosondagem à meia-noite. Como é que  o Sol e Manuel Magalhães acharam que tinham o direito a fazer e difundir uma 1ª página na base de informação que estava sob embargo? E como poderá o Sol ter tido acesso a estes resultados para calcular médias e fazer uma 1ª página às 23 de ontem? Haverá algum sítio onde os resultados de todas as sondagens das várias empresas sejam obrigatoriamente conhecidos antes da sua divulgação pública? Deixa-me pensar... Espera... Será? Não é possível...

Uma selva, pura e simples.

Aximage, 10-14 Janeiro, N=1000, Tel.

Cavaco Silva: 54,7% (-2,4)
Manuel Alegre: 25,6% (+4,7)
Fernando Nobre: 10,7% (+2)
Francisco Lopes: 6,3% (?)
Defensor de Moura: 1,8% (-1,3)
José Manuel Coelho: 0,9% (?)

Não está online. A mensagem é igual à das mensagens anteriores (excepto Marktest): Cavaco com menos de 60%; Alegre com mais de 20% mas menos de 30%.

CESOP/Católica, 15-18 Jan, N=4321, Presencial

Entre parêntesis, mudança em relação a anterior sondagem da mesma empresa:
Cavaco Silva: 59% (-4)
Manuel Alegre: 22% (+2)
Fernando Nobre: 10% (+3)
Francisco Lopes: 6% (+3)
José Manuel Coelho: 2%
Defensor de Moura: 1% (=)

Aqui. A estimativa da Católica para Cavaco está significativamente acima da da Intercampus, mas não da da Eurosondagem. Está abaixo da da Eurosondagem para Alegre, mas não é significativamente diferente da da Intercampus. Nobre está, para todos os efeitos, igual nas três últimas sondagens. Lopes está acima para Intercampus, sem diferença significativa entre Católica e Eurosondagem. Nas tendências, iguais em quase tudo, a não ser que, para Católica, Alegre sobe. Mas a última sondagem da Católica foi há mais tempo. Unanimemente a subir, Nobre e Lopes. Unanimemente a descer, Cavaco.

Em suma, as últimas três sondagens estão a dizer-nos coisas muito parecidas.

Eurosondagem, 13-18 Janeiro, N=2063, Presencial

Entre parêntesis, mudança em relação a última sondagem da mesma empresa:

Cavaco Silva: 56,3% (-3,7)
Manuel Alegre: 25,0% (-5)
Fernando Nobre: 10,1% (+5,3)
Francisco Lopes: 5,2% (+0,7)
Defensor de Moura: 2,0% (+1,3)
José Manuel Coelho: 1,4%

Aqui. Para todos os efeitos, esta sondagem diz-nos exactamente a mesma coisa que a da Intercampus, excepto na votação para Francisco Lopes. O que quero dizer com isto é que, tendo em conta a dimensão das amostras, as diferenças entre as proporções estimadas para os 3 primeiros candidatos nas duas sondagens carecem de significância estatística. Para além disso, apontam para as mesmas tendências: Cavaco e Alegre descem, restantes sobem.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Intercampus, 16-19 Janeiro, N=1004, Presencial

Entre parêntesis, mudança desde sondagem anterior da mesma empresa:

Cavaco Silva: 54,6% (-5,5)
Manuel Alegre: 22,8% (-2,5)
Fernando Nobre: 9,1% (+4,9)
Francisco Lopes: 8,2% (+1,9)
José Manuel Coelho: 2,7% (+1,1)
Defensor de Moura: 2,6% (+0,1)

Aqui. A soma disto é 100%.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Taxa de resposta

Como se calcula a taxa de resposta numa sondagem? A taxa de resposta é a percentagem de entrevistas concluídas (802, no caso desta sondagem) em relação a um total que consiste em:

EC: entrevistas concluídas
EP: entrevistas parciais ou incompletas
R: recusas
NC: não-contactos (casos em que se confirma a existência de um inquirido elegível mas com o qual não se consegui estabelecer contacto).

Está explicado aqui.

Marktest, 14-16 Janeiro, N=802, Tel.

Cavaco Silva: 61,5%
Manuel Alegre: 15%
Fernando Nobre: 12,7%
Francisco Lopes: 3,3%
José Manuel Coelho: 2,1%
Defensor de Moura: 1,2%

Aqui. A soma disto dá 95,8%. A notícia reporta que "a percentagem de votos brancos e outros [quais outros?] é de 4,2 por cento". Se os deixarmos de fora, para tornar o resultado comparável com o de uma eleição, ficamos assim (entre parêntesis, comparação com sondagem anterior da mesma empresa):

Cavaco Silva: 64,2% (-14,1)
Manuel Alegre: 15,7% (+0,7)
Fernando Nobre: 13,3% (+9,3)
Francisco Lopes: 3,4% (+2,7)
José Manuel Coelho: 2,2%
Defensor de Moura: 1,3%

terça-feira, janeiro 18, 2011

Mais uma vez

Anxo Luxilde, jornalista do La Vanguardia, cita-me como sendo "director de los sondeos de la Universidad Católica". Mas não: no fim de 2009, o meu mandato chegou ao fim, e solicitei que não fosse renovado. Agora estou no ICS em exclusividade. O novo - enfim, há cerca de um ano - director do CESOP é Rogério Santos.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Insónias

Ainda se lembram dos resultados das últimas sondagens nas eleições presidenciais de 2001? Não? Então vejam com muita atenção.

Uma conferência

Estive hoje numa conferência sobre Matemática e Eleições. Fui falar sobre sondagens. Estavam mais de 100 pessoas na assistência. Falei de erro amostral e outros tipos de erro, de cobertura, de "não-contacto" e "não-resposta".

Muitas perguntas. Perguntaram-se se o erro amostral é afectado pela dimensão da população sobre a qual estamos a fazer inferências. Se a abstenção afecta a diferença entre as intenções de voto e os resultados, e como e porquê. Em que medida os dados do recenseamento da população são úteis para quem faz sondagens. Se sempre é verdade que as sondagens subestimam sistematicamente o CDS e, se sim, por que será. O que se faz para corrigir distorções entre a composição das amostras e aquilo que julgamos saber sobre a população? E se nós sabemos as fontes de erro "não-amostral", o que podemos fazer para as contrariar? E porque não fazemos mais e melhor?

Quem me fez estas e outras perguntas foram alunos de 15 e 16 anos do Colégio Paulo VI, em Gondomar. Não é só as perguntas terem sido boas. Foram todas curtas, muito incisivas, feitas por pessoas que perguntam porque, simplesmente, querem saber. Nada do que sucede normalmente nas conferências em Portugal ("Bem, a minha pergunta não é bem uma pergunta, é um comentário," etc). Em suma, continuo optimista.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Presidenciais



















Acrescentei os resultados das últimas sondagens Intercampus e Marktest. Corrigi os resultados das anteriores sondagens Intercampus, porque não me tinha dado conta de que, anteriormente, tinham apresentado projecções incluindo brancos e nulos no total. E acrescentei uma sondagem da Aximage de Junho passado.

sábado, janeiro 08, 2011

Aximage, 3-6 Jan., N=600, Tel.

Cavaco Silva: 57,1%
Manuel Alegre: 20,8%
Fernando Nobre: 8,7%
Francisco Lopes: ?
Defensor de Moura: 3,1%
José Manuel Coelho: ?

Aqui.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Intercampus, 3-6 Janeiro, N=1002, Presencial

Cavaco Silva: 60,1%
Manuel Alegre: 25,3%
Francisco Lopes: 6,3%
Fernando Nobre: 4,2%
Defensor de Moura: 2,5%
José Manuel Coelho: 1,6%

Aqui. O total é 98,4%. Suponho que o resto são votos em branco, que não são contabilizados para apuramento final. A notícia fala de uma queda de 6,9 pontos para Cavaco. Notem que a anterior sondagem da Intercampus era, ao contrário desta, telefónica. É só uma sondagem. Há erro amostral. Etc. Mas não tenho ilusões nenhumas: toda a gente vai dizer que isto é um efeito do BPN.

P.S.- Se olharem para a sondagem anterior, vão ver Cavaco com 64,3 e talvez pareça estranho que se fale numa queda de 6,9. Mas os resultados da sondagem anterior foram apresentados com percentagens calculadas em relação ao total de votos válidos + em branco. Redistribuídos, Cavaco ficava com 67, e daí a queda de 6,9 para a sondagem de hoje.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Inquérito ao Emprego passa a ser telefónico

Acho a notícia de hoje sobre a mudança do modo de aplicação do Inquérito ao Emprego muito interessante, pelo menos de dois pontos de vista. O primeiro é que nos ajuda a perceber que, manifestamente, muitas pessoas não perdem tempo a pensar de onde vem a esmagadora maioria da informação das estatísticas nacionais. Por exemplo, hoje, a TSF anunciava que o BE iria pedir esclarecimentos sobre a mudança, anunciando que "as estatísticas nacionais não podem ser sondagens". Não podem? Mas é precisamente isso que são. Com excepção da informação que resulta dos recenseamentos da população, a maior parte das estatísticas nacionais, em qualquer país do mundo, resultam, precisamente, de inquéritos amostrais, ou seja, de sondagens (ver aqui a forma como o Inquérito ao Emprego vinha sendo conduzido até agora). Se devem ser presenciais, telefónicas ou online é algo que se pode discutir longamente,  e é óbvio que são feitas com recursos e tempo muitíssimo maiores que qualquer sondagem para a comunicação social. Mas são, no fundamental, sondagens, quer lhes queiramos chamar isso ou outra coisa qualquer.

O segundo ponto interessante é que, por isso mesmo, o INE talvez devesse ter sido capaz de prever que a súbita "recordação" desse simples facto poderia ser acompanhada de suspeitas e acusações várias, mesmo que completamente descabeladas. Uma das coisas que se diz na nota informativa do INE (descarregar aqui) é que a decisão de passagem para inquérito telefónico foi tomada em 2008 e que os trabalhos para a execução do “Projecto para o planeamento, concepção, preparação e implementação da entrevista telefónica no Inquérito ao Emprego (...) "decorreram desde então com grande intensidade". Houve um "trabalho rigoroso e intenso de planeamento, investigação, concepção e preparação" e foi realizado um "um conjunto vasto de testes estatísticos para medir o impacto das alterações a introduzir". Óptimo. Mas se é assim, por que razão "a descrição detalhada do processo de transição para o modo de recolha telefónico, bem como dos impactos nas estimativas a publicar no 1º trimestre de 2011 e nos conteúdos informacionais objecto de difusão, constarão de documento metodológico a disponibilizar oportunamente"' Haverá momento mais oportuno do que este? Se houve tanta preparação e investigação, não teria sido melhor divulgar os seus resultados agora? Acompanhar este anúncio com documentação metodológica detalhada seria a melhor maneira de fazer que esta mudança no modo de aplicação do inquérito fosse melhor compreendida. Assim, temos confusão desnecessária. Estou a ver mal?